quarta-feira, 14 de julho de 2010

Este Palhaço É Meu Pai



Leia o texto de Denize Guedes, não a filha de um palhaço, mas a filha de um BRASILEIRO chamado Amaury Guedes que até hoje luta por justiça no Caso Aerus. Belíssimo texto tirado do blog http://tinylittlebox.wordpress.com.

"No princípio, ele era da manutenção. “Entelamento”, especifica com voz relevante. Palavra pouco usada, tive de recorrer ao Google para entender que nesse setor ele cuidava de reparar as telas dos lemes e profundores dos aviões. Ficou pouco lá, logo acabaram com a função e ele foi procurar um curso de telegrafista com a ideia firme de integrar a equipe de terra. Junto, tratou de frequentar a estação de rádio como ouvinte e de ficar bem de olho nos teletipos que informavam número de passageiros, horários e boletins meteorológicos aos comandantes. Quando conseguiu o posto, não tardou o dia em que informatizaram a área. Pensou rápido e deu um jeito de se encaixar como radiotelegrafista de vôo – foi assim que primeiro voou e também sofreu seu único acidente. Vieram os computadores de novo e viu mais um trabalho ir pelos ares. Como já somava alguns anos na casa, ganhou um quepe, uma farda azul-marinho da tripulação e um OK para ficar até completar o tempo de aposentadoria.

Hoje, fios negros resistentes em meio ao branco da cabeleira rala, o comissário de bordo aposentado da Varig e meu pai, Amaury Antunes Guedes, 74 anos, tem três fantasias. Não daquelas de sonhar, mas de vestir mesmo: de palhaço, alma penada e anjo. Essa última anda emprestada com Cléia, uma colega de batalha. Guarda tudo em seu carro. Abres-se o porta-mala e, feito aquelas caixas de onde pulam um palhaço, começam a sair uma bandeira do Brasil, cartolinas de cores chamativas, cartazes plastificados para pendurar no pescoço com barbante, dezenas de isopores com mensagens carregadas de humor típico deste seu Amaury. “Quem tem boca vaia Lula”, “Aerus em pratos limpos”, com logo do Fome Zero , e “Pura Tristeza”, em referência ao Partido dos Trabalhadores, são alguns deles. Quando não está na rua, em busca de estampar jornais e portais na internet, está em frente ao computador lendo as últimas notícias sobre a situação do Aerus, fundo de pensão da antiga Varig, que, sob liquidação desde 2006, atualmente paga 8% de seu benefício.

“Aproveito todo tipo de evento midiático para chamar a atenção. Somos milhares de aposentados sem receber o que é nosso direito”, diz.

Do entelamento ao protesto, algo parece unir essas duas pontas da história de meu pai: um exacerbado instinto de sobrevivência. Se em 36 anos de serviços prestados à companhia aérea que já foi a “estrela brasileira no céu azul” ele foi se agarrando de oportunidade em oportunidade para se manter vivo no campo de trabalho, em 19 de aposentadoria, segue ágil – do jeito que a artrose no joelho esquerdo permite – na briga por aquela que um dia lhe garantiram ser a melhor idade. “Minha contribuição era de 20% do salário para ter uma velhice digna e tranquila, tenho guardados os holerites com os descontos. Por isso luto”, lamenta aquele que sempre me ensinou a ser persistente e pertinaz nesta vida.

Foi a partir de 2006 que acordou do sonho da aposentadoria, com o início do processo de falência e posterior recuperação judicial da Varig. Foi também nesse ano que primeiro fez um protesto na rua. Talentoso para gerar mídia espontânea, emplacou logo uma nota com foto no “Correio Braziliense” dentro de uma matéria sobre a manifestação de funcionários públicos daquele dia: “Aposentado chora na praça”, já esboçando as principais características da figurinha fácil de qualquer grande evento com cobertura jornalística que viria a se tornar, aparece na Praça dos Três Poderes, capital federal, com a inseparável bandeira verde-amarela, os olhos marejados e um cartaz pedindo para Lula olhar pela Varig. “Peguei carona no protesto. Eu achava que Lula era a solução, ele dá dinheiro para bancos, para ruralistas, para todo mundo. Achava que iria ajudar a Varig. Estava enganado”, lembra-se.

A decepção não seria tão grande caso também não acumulasse no currículo de brasileiro anos de militância pelo PT, tempo em que se familiarizou com bandeiras e cartazes em praças públicas. Na pasta plástica em que guarda o seu clipping – ou “portfólio”, como gosta de chamar – há uma matéria da “Folha de S.Paulo” de 2006. Alto de página, foto estourada, ele segurando uma bandeira chamuscada e com rombos que ilustra um texto sobre a situação da companhia aérea à época. “Amaury Guedes, funcionário aposentado da Varig, faz protesto no aeroporto de Guarulhos (SP), onde queimou bandeira do PT”, trazia a legenda. Era o retrato das ilusões perdidas do meu pai publicado em jornal. “Lula faz coisas boas, só que a variante veio diretamente prejudicar a nossa categoria. Parece que ele detesta a Varig. Este senhor que está no hospital também tirou o corpo fora”, fala, referindo-se ao vice-presidente da República, José de Alencar, que estava internado no Sírio Libanês – onde também fez protesto.

E a coisa foi acontecendo assim. Primeiro ele despiu a roupa de militante do PT, queimou bandeiras que costumava levar para tremular na avenida Tiradentes e em passarelas da Rubem Berta (fundador da Varig, por sinal), pegou em cartazes com dizeres de cobrança e, por fim, vestiu fantasias para protestar por inteiro. Virou palhaço o meu pai. Também uma alma penada e um anjo. Os três dentro do mesmo homem. O mesmo homem dentro dos três.

Como um anti-herói tupiniquim a la Batman, atende ao chamado de qualquer fato que atraia gente com bloquinho e caneta na mão, câmera fotográfica ou de TV em riste, gravadores e celulares que carreguem vozes. Entra em seu anti-carro importado de 1999, relíquia dos tempos em que filé mignon e finais de semana em Recife eram o feijão com arroz simples que come hoje, ruma para o local de alarde, entra dentro de um anti-traje e espera que os repórteres que cobrem a pauta não o desprezem. Outras vezes, vai de ônibus e metrô com os anti-poderes levados na malinha preta de mão. “Quando vou fazer manifestação é como se me transformasse em um ator. Viro outra pessoa, não me sinto um palhaço”, conta.

Buraco do metrô de São Paulo, visita do papa Bento XVI, caso Isabella, acidente da TAM, acidente da Gol, show da Madona, protesto nu de ciclistas na avenida Paulista, instalação ao ar livre, greve da USP, fora Sarney, ele está em todas. Muitas vezes, fico sabendo por matérias na TV ou galerias de foto na Internet.



Às vezes, é ridicularizado, outras enaltecido. Não fica chateado quando o interpretam mal e sai contente quando contam sua luta. De um jeito ou de outro, vai logo correndo para o Tesouro Laser, gráfica na Praça da Sé onde faz todos os seus trabalhos de impressões e plastificações, para guardar a nova matéria. Quando é de TV e não grava na hora, procura no YouTube. No rádio ainda não falou muito.

Conhecido de profissionais de imprensa também já ficou. Um deles, editor do site Jornalirismo, Guilherme Azevedo, o convidou para ser entrevistado em uma das aulas do curso de Jornalismo Literário que conduz. Outro, um fotógrafo da “Folha”, foi cobrir uma escultura de gelo colocada em frente ao parque Trianon, na Paulista, por conta de uma campanha de conscientização contra o aquecimento global, e clicou o seu Amaury que andava por lá – como era de se esperar. Anotou o gmail do meu pai e mandou umas três fotos no mesmo dia. Eu soube através de uma ligação exultante.

Aliás, gelo. Quando ouviu falar das barras e barras de gelo que estavam derretendo sob o sol na avenida cartão postal de São Paulo, seguiu para lá o mais rápido que pôde. Foi a paisana mesmo, despido de fantasias. Queria apenas fotografar a imagem perfeita para mandar fazer um cartaz no Tesouro Laser simbolizando a situação dos seus vencimentos. “Até três anos, eu recebia R$ 5.689,00. Hoje, ganho R$ 758,00. A minha aposentadoria virou gelo, foi regredindo passo a passo”, compara. A tal foto das barras imortalizadas em gelo é das que ele mais usa para mandar e-mails para senadores e deputados. Para isso dá o nome de “passeata virtual”. Não costuma receber muitas respostas, mas já fica feliz quando voltam poucos e-mails e libera todas as mensagens que retornam com mensagem anti-spam.



E assim eu sei que ele vai até a última gota, do seu suor e do seu dinheiro derretendo com o tempo. Nos últimos dias, anda entusiasmado com um acordo que obriga o governo federal a acertar contas com a antiga Varig. Como o Aerus é o principal credor da companhia, boa parte do dinheiro deve ir para o fundo e dar sobrevida ao benefício de milhares de aposentados. “Melhor um péssimo acordo que uma boa demanda [judiciária]”, acredita.



Com sobrevida ou não, sei que de sobrevivência o meu pai entende. Está sempre por aí criando recursos e não desculpas para enfrentar as coisas da vida. Muito além das estratégias que criou nas primeiras páginas da sua carteira de trabalho, aprendeu japonês para servir a cobiçada rota Los Angeles – Tóquio na última década de sua carreira, fez um curso de informática logo que se aposentou para manter o cérebro instigado e livrou-se de medicamentos traja preta em plena depressão pós-problemas da Varig. “Fiz força e joguei tudo fora. Prometi comigo mesmo, não vou ficar dependente de remédio”.

Alguma coisa ele carrega dentro de si que o faz viver – apesar da injustiça, da incerteza e das adversidades. Quando penso que, em 1960, meu pai passou por um acidente aéreo que registrou dez vítimas fatais e saiu apenas com leves ferimentos, tenho certeza disso. Foi às 13h15 do dia 12 de abril (dia em que, 46 anos depois, pela primeira vez, o Aerus começaria a fazer pagamentos parciais). O avião PPCDS caiu logo em seguida à tentativa de decolagem de Pelotas para Porto Alegre (RS). “Morreram o comandante Barroso e o co-piloto Almeida. Sobreviveram 12. Eu fui o primeiro a pular, tinha gasolina pelo corredor. Corri para a estação de rádio e passei uma mensagem para o senhor Berta: ‘PPCDS acidentado, perda total, ignoramos o número de vítimas’”, conta.

Se não fosse a sua disposição por sobreviver, eu não estaria aqui para contar esta história. Nem ele estaria aqui para seguir estampando páginas de jornal, revista e internet – atual ofício que exerce com afinco. Como um palhaço que tira graça até mesmo da tristeza, meu pai tira forças até mesmo da sua enorme fragilidade.

É o melhor palhaço do mundo."

Mande a sua história relacionada ao drama do Caso Aerus para o e-mail avioesabatidos@gmail.com. Teremos o maior prazer em compartilhá-la. Não esqueçam de opinar no "Plebiscito Aviões Abatidos" no topo do blog, já ultrapassamos os 3 mil votos.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Carta do leitor

O blog tem recebido depoimentos de diversas partes do Brasil. Vale à pena compartilhar com vocês o recado de Francisco Santos Nunes. Ele fala diretamente do Norte do País.

“Eu me chamo NUNES, nome que carreguei na camisa e no coração, enquanto funcionário da nossa velha Varig. Há quatro anos que também sofro junto com os demais colegas. Para continuar a sobreviver, tive que me desfazer de tudo que tinha conquistado com o meu suor e trabalho. Temos esperança, quando vemos esse tipo de atitude como essa que vocês tiveram. Sou do Norte do Brasil, mas isso não me faz menos variguiano, eu me considerava um soldado da Varig, ia pra onde me destacavam, era para fronteira ou para a Europa, não tinha problema, eu estava sempre de malas prontas. Salvamos vidas, ajudamos repórteres em seus trabalhos, levamos remédios, sem cobrar um centavo a mais do valor de suas passagens. Comecei como simples atendente no aeroporto, cheguei a gerente de aeroporto III. A dor da perda da nossa empresa, foi como perder um pai, uma mãe.

Quando falo que nós da Varig salvamos vidas e ajudamos repórteres, me refiro ao que está escrito no livro de Marcos Losekann, Ronco da Pororoca, página 58, se não me engano. Lá fala do episódio que ocorreu comigo e o Marcos Losekann, da Globo, que hoje está na Inglaterra. Naquela época, sem desmerecer a classe médica, o melhor médico da região (Acre) era a Varig, porque se nós chegássemos a tempo com o passageiro enfermo em Goiânia ou São Paulo, o paciente estava praticamente salvo. Tínhamos o passageiro como nosso melhor amigo, não só como cliente. Hoje, quando estou na condição de passageiro, não sinto a mesma coisa.

Um forte abraço e sucesso na causa.”


Sobre a carreira de Nunes: “Comecei em Manaus, em 1979 como despachante IV, passei a ser SAE (Serviço de Atendimento Especial), e cheguei a exercer o cargo de gerente de aeroporto de 1992 a 2001 em Rio Branco, AC- São Luis, MA, de 2001 a 2006 e cheguei até ser gerente interino em Copenhague, DK.”

Estamos felizes de conseguir colocar esperança na vida de milhares de aposentados de todo o Brasil. O blog Aviões Abatidos estará recebendo, de braços abertos, depoimentos como esse pelo e-mail avioesabatidos@gmail.com.

Fique a vontade para enviar a sua contribuição e contar a sua história.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

“Eu merecia outra vida”

O Senhor Germino, ou Seu Gegê como é conhecido, foi um sócio fundador do fundo de pensão Aerus. Após mais de 20 anos contribuindo com o seu salário, todo o mês, para o fundo Aerus, Gegê hoje é obrigado a suplicar por um dinheiro que é seu POR DIREITO. No YouTube, ele conta um pouco sobre a sua trajetória na Varig e fala sobre a tristeza que vive nesses últimos quatros anos sem a ajuda financeira da aposentadoria complementar. “Eu merecia outra vida, sou sócio-fundador do Aerus, tenho diploma, eles disseram que o que tiraram (do salário) o governo ia me devolver...”, conta o aposentado. Veja o vídeo:



Obs: As vozes que aparecem entrevistando o Seu Gegê são dos Comissários Aposentados da Varig Antonio Melo e Paulo Resende.

Milhares de pessoas e famílias vivem assim como o Seu Gegê, esperando que o Governo cumpra com a sua obrigação. Eles não tem tempo para esperar, Seu Gegê, por exemplo, está com 86 anos.

Obrigado pela visita!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A dura realidade dos que sofreram o golpe do Governo com o Caso Aerus

Pedimos agora para que você seja uma testemunha dessa situação desumana em que vivem os aposentados da Varig, vítimas da fiscalização displicente e irresponsável do Governo (ou, simplesmente, a omissão total do Governo) com relação ao Fundo de Pensão Aerus. Foram coletados depoimentos de alguns aeroviários e aeronautas aposentados da extinta companhia aérea. A situação é grave e pode ficar ainda pior se a União não cumprir com a sua obrigação. Veja o vídeo abaixo:




VOTE no Plebiscito Aviões Abatidos no topo desse blog e dê a sua opinião sobre o assunto. É muito importante para a vida de milhares de aposentados da aviação brasileira que passam pela mesma situação.


Obrigado pela visita, a sua participação pode fazer toda a diferença!

A nuvem do moço e a velhice

Há quatro anos o Governo destrata o Caso Aerus, como se fosse normal adiar o pagamento de idosos, pessoas que, infelizmente, não tem o mesmo tempo de vida que os “moços”. Esse grupo de aposentados tem, em média, 72 anos de idade. Mas, para os poderosos, isso parece não fazer diferença.

Ouça abaixo a fala do aposentado da Varig, Alfredo Carlos Antunes de Sampaio, sobre a angústia da espera para o idoso. (Áudio tirado de entrevista realizada na Band AM 640 no dia 21/05/2010, com o jornalista Milton Cardoso.)




A espera é uma bomba relógio no colo desses idosos!

Até quando Governo?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Plebiscito Aviões Abatidos

Você já deve ter percebido que tem uma novidade no topo desse blog. Trata-se do “PLEBISCITO AVIÕES ABATIDOS”.

Há quatro anos a União enrola na justiça para não pagar os aposentados da Varig, contribuintes do fundo de pensão Aerus. Muitos deles, hoje, estão na miséria sem dinheiro até para pagar comida ou medicamentos. O pior é que essas pessoas contribuíram todos os meses, durante 20 anos de sua vida profissional, com um dinheiro do próprio salário para garantir uma velhice tranqüila e uma aposentadoria digna.

O dinheiro nunca mais voltou para os seus bolsos.

Com a quebra do Aerus, a União, que é a única responsável pelo fundo de pensão e por seus assegurados, alega que o pagamento dos contribuintes poderia causar, acredite se quiser, um “risco de lesão a ordem e a economia pública”. Enquanto isso, os óbitos desse grupo de pessoas, com idade média de 72 anos, subiram 20% nos últimos quatro anos. Eles não são mais jovens e não tem mais tempo para esperar.

Dados os verdadeiros fatos...

Como somos democráticos, queremos a sua opinião sobre o Caso Aerus:

Afinal, a União deve ou não pagar o que é de direito dos aposentados do Aerus?

O seu voto é muito importante para o andamento desse caso, contamos com a sua colaboração!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Cláudio Brito defende Aviões Abatidos na Rádio Gaúcha

Mais uma vez, o Aviões Abatidos ganhou um importante espaço na mídia. Na última segunda-feira, dia 07 de junho, o ex-piloto Alfredo Carlos Antunes de Sampaio, um dos milhares de aposentados do Caso Aerus, foi entrevistado pelo jornalista Cláudio Brito na Rádio Gaúcha (Grupo RBS) no programa Bom Dia Segunda-feira.

Vale destacar uma das falas muito bem colocadas por Cláudio Brito para defender sua opinião sobre o endividamento do Governo (União) perante os aposentados e pensionistas do fundo de pensão Aerus:

“Se entender alguém de que pagar essa conta poderá desequilibrar o cofre do tesouro, então, não se paga. Devo não nego, mas não posso pagar (diz o Governo). Em última análise é isso, o que nós, cidadãos, não podemos fazer. Nós não podemos ficar devendo, não podemos dizer para a receita federal que ‘devo, não nego, pago quando puder’...”

Ouça a entrevista:

Parte 1


Parte 2
http://www.youtube.com/watch#!v=MHzaNw56w-A

Parte 3
http://www.youtube.com/watch#!v=OSGz8TczfHk